20 de setembro de 2017

A Máquina



A primeira vez que ele a viu, mesmo tento ouvido falar, não soube precisar o que era. Uma televisão? Um rádio? As duas coisas juntas? Aproximou-se, cores berrantes, alavancas, botões. O cômodo era escuro. Seu amigo contou-lhe que havia perdido toda a manhã anterior ali. O dono do estabelecimento fez como se eles não estivessem no local, se enfiou entre duas daquelas máquinas e as ligou. O som saiu antes da imagem, alto. Incrível.

Funcionava com fichas, como os orelhões, percebeu. Pequenos círculos metálicos com os dizeres "havai" deveriam ser inseridos na parte de baixo da máquina para dar-lhe alguns minutos de diversão. Dez centavos, um crédito. Era difícil ter uma moeda para trocar por uma ficha, mas dava um jeito. Também, se não desse não tinha problema: observar a máquina já lhe bastava. Via-na como um símbolo da cidade, da modernidade, não conheciam a palavra tecnologia para usá-la.

O desempenho na escola caiu. As imagens da tela de tubo não saía da cabeça. Repetia o som dos golpes dos lutadores, coisa de infância atrasada. Enforcava aula (chamava assim gazear, não entrar na escola), mas ninguém dava falta, afinal era invisível. Trocava coisas velhas por moedas, a fim de conseguir alguns minutos no controle da máquina. O dono das máquinas era discreto, como todo bom dono de algo importante. Talvez não se importasse, talvez estivesse ocupado com algo importante. 

Não havia felicidade maior do que estar diante da tela.           

   

6 de setembro de 2017

Ainda


Limites, repetição, prisão. Todas estas palavras significam a mesma coisa para ela. Nem mesmo um nome lhe deram. É uma mulher de vinte e poucos anos que dança a mesma música com o mesmo par no mesmo lugar e no mesmo momento. Na verdade, só há um instante e ele se mantém. Ela sabe que alguém os observa. Às vezes consegue sentir o toque quente sobre a tela. Querem saber se é real; se não é uma cópia. A tinta secou há muitos anos, mas a dança não acaba enquanto existir a observação. Quando as portas se fecham, os passos se afastam e as luzes se apagam é que pode desfrutar da liberdade. Conversar, se sentar, beijar. De dentro, a tinta é sempre fresca. Sair? Ela sabe que é possível, embora não possa precisar como. É como um nome na ponta da língua que teima não sair. Um gatilho prestes a atingir o cão do revólver. O cheiro de pólvora é assustador. Como sabe identificar o cheiro de pólvora? A música toca infinitamente, as mesmas risadas e comentários. Tudo é tão previsível e automático que não há vida.
Ela não está mais dançando. Em sua frente há um homem de traços orientais. Ele é pequeno, forte, ágil e confiante. O sujeito cobra-lhe foco. O suor escorre do peitoral definido do homem. O que faz ali? É confuso. É complicado. Ele fala o seu nome. Ela sabe que é o seu nome, mas não consegue guardá-lo na memória. O que está havendo? 
Segura a taça com delicadeza. O cristal está próximo aos seus olhos castanhos para análise. Franze o cenho ao imaginar que o objeto foi moldado em homenagem aos seios de uma rainha. Teria bebido vinho demais? Não seria a única. A risada alta, gestos exagerados, franqueza, são observados no salão. Todos estão felizes, o observador se foi. É noite lá fora. Uma mulher bonita se aproxima, os seus ombros descobertos estão suados. A festa é em homenagem ao casamento desta mulher que é sua amiga e isto basta. Basta? Não. Falta algo. Um objeto. Ela pergunta:
— Onde está sua aliança?
— As pessoas não vão entender — o homem de traços orientais fala o nome mais uma vez. 
Ele está certo. Não é fácil compreender que todo ser humano não passa de um objeto de adorno; que sua vida está presa em uma joia dimensional. O oriental é apenas uma aliança perdida, já que se tomassem consciência de sua existência ele teria o mesmo fim das outras joias.

Guardado.

— Eu a perdi — a Noiva dá de ombros. 
Ela beberica o resto do vinho de sua taça. Responde: 
— Deveria tomar mais cuidado.    
— Ainda acho que algumas coisas não podem ser evitadas.
Ela abre os olhos vigorosamente. Um estalo, um chute no estomago, um atropelamento, buzinas. A taça escapa-lhe dos dedos e ganha o assoalho de madeira estilhaçando-se. Ela afasta a cadeira, desajeitada. Noiva também se levanta sob constantes pedidos de desculpa. Entre os cacos há uma aliança prateada e reluzente. 
Ele se chama Jun-fan e não morrerá de velhice. Tem esposa e dois filhos ainda (é esta a palavra) pequenos. Em que ano está? Não importa. É como admirar um quadro, os detalhes continuam ali, mas a visão da totalidade é que é chamada de arte. O relevo da tinta, o desenho que mais parece um borrão se observado de perto. A moldura fecha o mundo, assim como o metal cerca a vida. Repetição. Tudo está pré-determinado para aqueles que estão afastados. Os afastados são como o observador. A explicação é bem simples: são aqueles que podem ver a totalidade.
— Liberte-se — é o que Jun-fan diz. 
Ela pensa em argumentar com ele, explicando-lhe que a vida é um círculo prateado, donde não se pode precisar o local do começo e o fim, mas desiste. O homem acredita verdadeiramente no que diz e há algo estranho nele. Ela sabe o que é; percebe que já viu alguém com habilidades similares; um ser capaz de compreender a beleza de uma joia. 

Ourives.

Os joelhos pressionam o assoalho de madeira ao som do vidro esmagado. O anel está pinçado e em frente aos seus olhos. 
— Ele me fez colocar em sua bebida. Disse que algo está acontecendo; que você precisa se preparar.
Ela gira o anel entre os dedos. O metal frio, uma vida. Quem? 
— Coloque-o — diz Noiva.


Você pode acompanhar outras histórias dos personagens do Mundo Oito aqui. 

1 de setembro de 2017

Fezesman, o juiz de merda

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15 de agosto de 2017

À Sua Porta - Oscar Mendes Filho


O diário de alguém com transtornos mentais  

"À Sua Porta" é o último livro publicado pelo autor Oscar Mendes Filho. O escritor de terror é conhecido no meio literário por seus 14 livros publicados, dentre eles Prisioneiro da Eternidade, Relatos Macabros 1 e 2 e Sombras do Castelo. 

Este livro, entretanto, é diferente dos outros títulos do autor, já que não é voltado para o terror propriamente dito. Tem características mais psicológicas (horror psicológico). Já no início do livro entendemos que o "original" chegou até Oscar em um pacote sem remetente. O misterioso que lhe enviou o futuro livro não fazia questão de ser reconhecido, tampouco de ter o seu nome atrelado à obra. O seu único desejo era o de ter suas memórias publicadas. Ao ler aquela história o autor não pôde negar o pedido...

Escrito em primeira pessoa, direto, rápido e perturbador, À Sua Porta aborda diverso temas atuais como a depressão e o suicídio. O personagem principal, embora possa facilmente ser confundido com qualquer adulto, tem seus segredos e o binômio: "o que sou de verdade" e "o que pareço ser aos olhos dos outros" é constantemente explorado. Um relato de uma mente em deterioração, em conflito e inquieta que foi cuidadosamente lapidado. 

O leitor é absorvido imediatamente pela história apresentada, de modo que passa a se preocupar com o seu desfecho. Esta sensação é propositalmente agravada por frases de efeito, indagações e fomentações de expectativa, o que torna a leitura fluída e rápida.

Rápida demais, diga-se, já que as quase 150 páginas da obra são lidas imediatamente, deixando o leitor com vontade de conhecer mais sobre o narrador e sua história. Em suma, uma leitura agradável, sem floreios, mas sutilmente reflexiva, capaz de prender imediatamente. 

Fica a resenha e a dica.
Abraço.


Ah, para você que ficou curioso, deixo o link para adquirir a obra e descobrir como um autor de terror recebeu uma história de outra pessoa para publicá-la:



Para conhecer as demais obras de Oscar Mendes Filho, sua biografia e outras notícias:



Blog do autor:


9 de agosto de 2017

Dê "Por que, Pai?" de presente neste dia dos Pais

O meu livro "Por que, Pai?"comemorou um ano de publicação dias atrás. Sua temática aborda a figura paterna por uma ótica reflexiva, veja a sinopse do livro: 



Sinopse

Até onde uma escolha pode levar uma pessoa? À felicidade, ao remorso, à loucura ou à destruição? Denis Ferreira é um advogado falido. Deprimido, afunda-se no álcool. Ao reencontrar Julieta, sua filha, revive momentos terríveis. Ela o coloca contra a parede em busca de respostas; tem ânsia por saber quais motivos justificariam aquela decisão capaz de mudar a vida de toda a família. 
Por que, pai?

Veja o que os especialistas em leitura falam do livro:

"Por que, pai? É uma história emocionante, de tirar qualquer estado bom do leitor para o sensível e até mesmo nos fazer chorar, é algo que não esperava tanto assim e agora trago em forma de resenha a minha opinião, creio que nesse ano fora um dos livros mais tocantes e diferentes que costumo ler." - Segredos Literários

"Por quê, Pai?, Paul Law consegue criar um enredo cheio de nós que são desatados a medida que adentramos a leitura e a medida que conhecemos os mais íntimos sentimentos de Denis, o pai que teve que fazer uma escolha que mudou completamente sua vida. Mas não se espante se tudo não for como você pensou que seria. Não se espante se em determinado momento a história der uma guinada que te fará chorar e enraivecer  ao perceber que história tinha muito mais que contar do que aquilo que imaginaste." - São Tantas Coisas

O booktrailer:


Você pode comprar o livro por R$ 38,00 (trinta e oito reais) no site da editora:


Ou na loja da Phoculos:

http://phoculos.com/loja/por-que-pai

Abraço! 

4 de agosto de 2017

Fezesman - impedido ou não?

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26 de julho de 2017

Vantagem


Nos dias atuais obter vantagem é algo comum e incentivado. Propagandas televisivas exageram na possibilidade de obter algo por um preço menor do que ele realmente vale; pessoas se vangloriam por ter “economizado” ao comprar pela metade do preço; contam com orgulho quando enganam as autoridades ou recebem dinheiro que não lhes pertencem. Estacionam em vagas que são exclusivas para deficientes ou idosos sob o pretexto de que “ninguém está usando” ou “há muitas vagas e poucos usuários deste tipo”. Tudo em nome da vantagem! Elas estão certas? Estamos? 

A vantagem por sua própria natureza é um desiquilíbrio. Por sua vez, desiquilíbrio é um erro de divisão. A balança pende para um lado e este fato é autoexplicativo. Frisa-se: toda vez que há vantagem, na outra ponta há desvantagem. Para que um ganhe o outro precisa perder. Dito isto, pense: preciso mesmo vencer? É necessário ter vantagem? Há outro modo de viver?

As religiões ao longo dos séculos nos deram uma pista sobre este assunto. Pregaram, envolta de   adornos e fumaça, a compaixão; mostraram o mundo do outro. Empatia, seria esta a palavra para começarmos a entender o problema da vantagem. O lado do outro. Lembre-se que a sua vitória será a desgraça de alguém. Não daria para estabelecer um empate?

Compre menos, obtenha menos benefícios, não leve vantagem. Pense menos em si. 

O problema do empate é que ele não é motivador. Sem a possibilidade de ganhar algo em troca do que se faz, perde-se a própria vontade de fazer. Embora seja uma qualidade da qual não se deve orgulhar-se, não se pode negá-la. Não há aquele que faça simplesmente pelo amor ao labor. É necessário ganhar pelo que se faz; é preciso valorizar o trabalho realizado, sobretudo o bom trabalho que, consequentemente é o trabalho de alguém que ama o que faz.

Há pessoas que dirão que tal premissa é uma inverdade; que existem pessoas que são motivadas pura e simplesmente pela compaixão ou prazer pela atividade. Se estes seres realmente são honestos consigo mesmo, fatalmente perceberão que sua motivação não está concentrada na ação que realizam, mas em um pensamento sobre ela. O indivíduo que faz por prazer, é motivado pela sensação de prazer. Neste raciocínio, até mesmo o que é impelido pelo amor ao próximo realiza algo não porque a ação o motiva, mas porque o sentimento de compaixão o impele. Em suma, para agir é necessário um impulso. Ninguém fará nada se não for impulsionado a fazer.  Há impulso mais convincente do que a vantagem? Então o que fazer? 

O equilíbrio é ilusório. A vantagem um mal.

18 de julho de 2017

Clube de Livros Phoculos



Lembram-se que eu havia dito que a Phoculos ia montar um Clube de Livros? Pois então, ele já está montado e você pode assiná-lo agoira mesmo. 

O Clube de Livros Phoculos possui conteúdo inédito de diversos autores. Contos romances e poesias de acordo com a estação do ano:

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Os planos de assinatura podem ser mensais, trimestrais ou anual. Há a possibilidade de comprar uma estação específica, como o Verão, por exemplo. 

Assim que atingirmos 50 assinantes o Clube vai começar!

Confira os detalhes no link:


Não é o máximo? 

Além receber bons livros, você ajuda a Phoculos a alavancar a carreira de escritores iniciantes!

Abraço. 

  

12 de julho de 2017

Entremundos - Neil Gaiman e Michael Reaves


Uma passada rápida por várias realidades 

Intitulado apenas de "Entremundos" este é o primeiro livro da trilogia de Gaiman e Reaves que aborda o tema multiverso numa pegada mais adolescente. Nele conhecemos Joey Harker, um adolescente estadunidense que tem um senso ruim de direção, capaz de se perder até mesmo entre os cômodos de sua própria casa. Aliás toda a história se desenrola por causa dessa habilidade do protagonista. Em um trabalho de escola, cuja missão é encontrar um ponto específico depois de ser abandonado em um lugar aleatório, Harker descobre que tem uma habilidade especial: ele é capaz de "saltar" para outras realidades. No começo, sem orientação e instintivamente, o personagem principal se vê confuso, mas com o tempo aprende que faz parte de um grupo especial de pessoas, as que são capazes de "andar". Joey Harker é treinado, conhece outras pessoas com a mesma habilidade e é convocado a lutar na guerra entre ciência e magia. Curiosamente (ou não) os seus companheiros de equipe são versões alternativas dele próprio.

Os autores esclarecem que originalmente a saga de Joey deveria ser televisiva. Estes traços são imediatamente notáveis nas páginas do livro que é rápido, dinâmico e sem muitas explicações. Há um começo impactante, um tempo de amadurecimento, um desastre e um desfecho heroico. Os personagens não são bem delineados, embora compreender o protagonista é como entender boa parte deles. A impressão que o leitor tem ao final é de que leu um roteiro, notou uma ideia interessante, mas pouco lapidada. Em suma, trabalhar com conceitos de realidades variáveis é interessante e foi bem colocado pelos autores, mas a sensação ao final da leitura é a de que faltou explorar o campo, introduzir conceitos. É uma leitura mediana, comparada a outras obras de Neil Gaiman e não se justifica pelo fato de ser voltada para um público mais jovem. Há obras do mesmo autor que são incríveis mesmo sendo direcionadas ao público juvenil. 

Fica a resenha. 
Abraço                

30 de junho de 2017

Resultado da promoção "Ester na minha casa!"

Acabei de realizar o sorteio do livro Ester edição clássica entre os seguidores da página Paul Law. Veja só os prints do resultado:

O número 149 foi sorteado

Thayna Diniz Miranda foi a ganhadora!
Parabéns Thayna! Logo entro em contato para obter os dados de envio do livro. Você que participou e não ganhou, não fique triste, pois logo teremos mais sorteios.

Curta a página, fique ligado. 
Abraço! 

21 de junho de 2017

Fezesman - Respeito sua opinião sobre mim

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14 de junho de 2017

O Mundo Oito está no Wattpad

Capa principal
Pense em uma história que mistura pinturas famosas, filosofia, joias e viagem no tempo. Estas são as premissas da minha web-série, livro, conto, projeto, ou qualquer coisa parecida que está disponível para ser lida no Wattpad. 

Eis o link:


E a sinopse: 

Imagine um quadro. Agora pense que os personagens desta obra de arte estão vivos, mas presos em suas respectivas posições e funções e que só podem se desvencilhar desta maldição quando ninguém está olhando para a tela. O Mundo Oito é uma dimensão alternativa onde seus habitantes estão presos ao momento, mas tudo isto está prestes a mudar com o uso de joias capazes de transportá-los ao nosso mundo.  


capa do capítulo 2

capa do capítulo 3

Originalmente para cada capítulo havia uma capa especial. Veja todas nesta postagem. Duas delas são pinturas famosas!

capa do capítulo 4
Os personagens das pinturas aparecem na história, assim como algumas celebridades históricas.  

Acompanhe por lá, deixe seu comentário.

Abraço!  

12 de junho de 2017

Um sorriso e um olhar


Penso em amor como um sorriso e um olhar. Um sorriso verdadeiro é bonito, não importa por quantas vezes se repita. Admirar os olhos de alguém que você goste é fascinante. Mesmo que o tempo dê a eles contornos indesejáveis, você ainda vai vê-los como da primeira vez. É mágica, simples assim. 

Muita gente acredita que o tempo é inimigo do amor. O relacionamento esfria, vira rotina. Tem o filhos, as contas, o trabalho. Você mal vê aquela pessoa que está do seu lado. Mas aqui, mais uma vez, acontece a mágica. Basta um olhar, um sorriso e pronto. Tudo parece novo de novo. 

Há quem classifique amor de forma horizontal e vertical; quem o mensure, escreva métodos, fórmulas, mapas. Quer saber? Amor é mágica, só isso. Nos tempos atuais não há outra palavra para defini-lo de forma mais exata. É quando alguém se lembra do seu casaco mesmo que você nunca use um. Quem fecha o portão de casa para você; serve seu jantar. Amor é cuidar do outro não por obrigação, mas por gostar do outro. Por isso, amor não se compra e não se vende. 

Presente é muito bom, mas não substitui a presença. Não substituirá a sensação de vê-la hoje quando eu chegar em casa. Mesmo que ela esteja em seus trajes caseiros, basta um sorriso e um olhar e estarei diante da mulher mais linda do mundo. Mágica, simples assim.             

9 de junho de 2017

A Phoculos vai enviar livros todo mês ajudando autores e aproximando leitores



A Phoculos iniciou um projeto inovador, cujo objetivo é aproximar autores e leitores. É um clube de livros por assinatura, com conteúdo inédito de diversos autores. Contos romances e poesias de acordo com a estação:

  • No Verão, Fantasia e Mistério;
  • No Outorno, Drama e Terror;
  • No Inverno, Ficção científica e Thriller;
  • E na Primavera, Slice of life e Comédia.

Não é o máximo poder receber todo mês um livro inédito? Eu quero participar tanto como leitor como autor e acho incrível esta possibilidade. 

Veja as metas do projeto e os detalhes neste link:


A mensalidade é a partir de R$ 49,50 e além receber bons livros, você ajuda a Phoculos a alavancar a carreira de escritores iniciantes!

Eu quero e você?

Abraço.

1 de junho de 2017

Tem sorteio do livro Ester no fim do mês


No último dia do mês de junho será sorteado mais uma exemplar do livro Ester, edição clássica. As regras para concorrer continuam sendo as mesmas veja:

- Siga a minha página do Facebook:


- Aguarde o sorteio que será no dia 30 de junho. 

Lembrando que todos os seguidores da página concorrerão. Se o sorteado já tiver ganhado o livro, será realizado um novo sorteio. 



O que está esperando para concorrer?
Até logo! 

24 de maio de 2017

A Era Vermelha


No tempo da Era Rubra surgiram os sacrifícios. A Virtude diminui um quarto e os homens, confusos, buscavam a Verdade através de cerimônias religiosas. Havia diferença entre o Divino e o Humano, pois perdeu-se a Identidade. Os homens conseguiam o que desejavam doando e fazendo. A religião que era una, dividiu-se em quatro e a Mente, então, diminuiu; a Verdade declinou para que chegassem as Doenças, os Desejos e as Calamidades. Estabeleceu-se o Pecado e o homem conheceu os castigos e o Medo.    

*Texto adaptado de trecho do conto "As idades do Universo" do livro "A Princesa que Enganou a Morte"  

17 de maio de 2017

A Era Perfeita



Há muito tempo havia apenas uma religião, de modo que não se pensava em conceituá-la, pois não se conhecia divisão. Todos os homens eram santos e não havia deuses nem demônios. Os homens nada compravam e tampouco vendiam e por isso não havia pobreza ou riqueza. Consequentemente, não era preciso trabalhar e tudo era conseguido pelo poder da vontade. O desapego dos desejos mundanos era a maior virtude. Por causa dele, não havia doenças, decadência ou velhice. Não existia ódio, vaidade, maus pensamentos, dor ou medo. O espírito elevado alcançava toda a humanidade, pois todos sabiam que eram parte do superior e infinito. Havia harmonia e reconhecimento e mais nada era necessário. 

*Texto adaptado de trecho do conto "As idades do Universo" do livro "A Princesa que Enganou a Morte"  

11 de maio de 2017

O depoimento de Fezesman

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2 de maio de 2017

A história do primeiro vendedor de laranjas do mundo


Era uma vez um sujeito que tinha um pequeno pomar de laranja em seu quintal. Ele plantou as árvores frutíferas pensando em colher laranjas para si mesmo, mas no momento da colheita há muitas laranjas. Elas irão estragar se ele não as dividir. O que ele faz? Sua primeira ideia é dar laranjas aos seus vizinhos e isto até que funciona num primeiro momento. O problema surge quando há muitos vizinhos querendo laranjas e não há para todos. Então, o homem escolhe aqueles que receberão laranjas. Os que ficam sem, no entanto, revoltam-se e pensam num modo de mudar a situação.  Eles oferecem benefícios/vantagens para o dono das laranjas em troca da fruta. Dê-me suas laranjas e te dou um pedaço de carne; dê-me laranjas e te dou limões. O futuro vendedor, então, começa a trocar suas laranjas por outras coisas que precise ou deseje. 

Agora, os primeiros vizinhos que recebiam laranjas apenas pela benevolência do dono e sem dar nada em troca estão em desvantagem. Para “voltar ao jogo ” eles precisam oferecer algo em troca das laranjas. 

Com o tempo, esta troca de laranjas por outros produtos fica confusa. Um pedaço de carne vale quantas laranjas? E limões? Para resolver o problema o homem tem a ideia de escrever em um papel esta informação: Uma dúzia de laranjas vale um pernil. O dono da carne, por sua vez, faz o seu título de crédito: Um pernil vale duas dúzias de laranjas.

Há um novo problema: não se pode usar laranjas ou pedaços de carne, nem limões para medir o valor das coisas. É necessária uma medida padrão, algo que se aplique a qualquer coisa. Os envolvidos resolvem criar tal papel e convencionam chamá-lo de dinheiro. 

Agora, o vendedor de laranjas cobra certa quantia de dinheiro por dúzias de laranjas. Com este dinheiro ele pode comprar certa quantidade de pernil ou limões e tudo parece bem, mais uma vez. Entretanto, o astuto vendedor de fruta logo percebe que há um custo para colher suas laranjas. O tempo de espera para que amadureçam, o preparo da terra, a colheita no momento certo e a chuva. Estes fatores devem ser levados em consideração na hora de estipular o valor de sua laranja. Assim, ele aumenta o preço da dúzia com base nesta justificativa. O fornecedor de carne entende o raciocínio, o produtor de limão também. Eles fazem o mesmo. 

19 de abril de 2017

O Silêncio das Montanhas - Khaled Hosseini


Crueldade e benevolência são a mesma coisa


O Silêncio das Montanhas é o título do terceiro romance do escritor Khaled Hosseini (já resenhei outra obra do autor aqui). Nele é narrado o dilema de uma pobre família afegã que se vê obrigada a entregar um filho a um casal bem abastado a fim de evitar que todos morram de fome. 

O livro começa com uma história contada por Saboor, pai de Abdullah e Pari, sobre um demônio que de tempos em tempos visitava a aldeia a fim de sequestrar uma pessoa para servir-lhe de alimento. Certa vez o filho predileto de uma pobre família foi o escolhido e o pai se entristeceu tanto que decidiu ir até a casa do demônio para desafiá-lo. Quando chegou ao local pretendido, percebeu que seu filho vivia muito bem ali; tinha uma vida que jamais teria se tivesse vivendo com seus irmãos em casa. O pai inconsolável então percebe a crueldade do demônio. Benevolência e crueldade são íntimas para quem já viveu muito, diz o demônio. Este conto narrado pelo pai dos protagonistas dá uma boa visão do que se trata o enredo do livro todo.  No segundo capítulo a narrativa muda para a terceira pessoa e conhecemos os personagens e os fatos que justificaram a viagem na qual o conto foi narrado, culminando na entrega da menina Pari de apenas três anos para a família Wahdati. 

A partir daí, o autor divide a obra em núcleos que exploram as consequências deste ato. Personagens figuram como principais por um tempo e suas histórias se conectam para criar um enredo maior. Cartas, relatos em primeira pessoa são misturados a narrativa comum no intuito de contar o que houve com os irmãos separados. Muitos anos são visitados e a impressão que fica é a de que tudo está interligado; a realidade daquele povo não muda com as gerações futuras.  

Hosseini é excelente ao contar suas histórias. São carregadas de sentimentos na quantidade certa. Foge ao clichê e prende o leitor imediatamente. O conto que abre o livro é uma ótima introdução. Diferente de em "O Caçador de Pipas", cuja narrativa seguiu mais linear e compacta, aqui, o autor é livre. Esta liberdade exagerada pode confundir o leitor, já que a mudança de núcleo é brusca e descontextualizada (num primeiro momento). Histórias muito diferentes que possuem apenas a mesma pátria como ligação. 

Por sua vez, quando a narrativa se fixa nos personagens centrais inciais, o arremate é emocionante. Em suma, um livro longo, de várias histórias paralelas que se juntam para formar algo maior, emocionante, impactante. 

Ótima leitura. Fica a resenha e a dica.
Abraço.    

13 de abril de 2017

Fezesman - merda mesmo

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10 de abril de 2017

Ganhe "Por que, Pai?" nesta Páscoa

O blog São Tantas Coisas,  a escritora Raíssa Nantes, e outros parceiros darão seis livros de presente nesta Páscoa. Veja a imagem das capas:


Como você pode perceber, o meu livro "Por que, Pai?" está na lista! Para ganhar as seis obras mais marcadores especiais você precisa:

1) Ter endereço de entrega no Brasil;

2) Cumprir as condições em*: https://www.facebook.com/raissanantesromancista/app/228910107186452/  

*O link te levará à página de Facebook da escritora Raíssa Nantes, dentro do aplicativo de sorteio. Neste aplicativo há todas as condições para que o seu nome seja incluído no sorteio.

O sorteio será realizado no dia 03/05/2017.

Boa sorte! 

31 de março de 2017

Momento Exato no jornal

O meu pequeno conto Momento Exato (publicado originalmente no site Phoculos, postagem aqui) saiu na edição de sábado, dia 25/03/2017, do jornal Tribuna do Guaçu. Junto dele uma competente reportagem sobre os meus projetos literários. Veja só:

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Gostaria de agradecer à Luciane Bueno pelo apoio de sempre e ao jornal Tribuna do Guaçu pelo espaço.

Seguimos! 

27 de março de 2017

Fezesman antigo ou atual

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Tem tirinha inédita do Fezesman na Phoculos, veja no link:

http://phoculos.com/variados/279-fezesman-merda-mesmo 

Abraço. 

20 de março de 2017

O primeiro capítulo de La Bandida


Prólogo

"Sangue... droga!" 
  
Um homem que aparentava ter 45 anos sorria ao olhar para a sua futura vítima; seu futuro troféu: 
 — Como é La Bandida? Como vai puxar o gatilho do seu revolver? 
Hum... era verdade! Como a pistoleira mais famosa do New Oeste poderia sacar do seu coldre? Ela estava baleada no braço esquerdo, o seu ponto forte em sacar da arma. O sangue escorria pela sua luva de couro e chegava a lhe causar frio. O direito? Não, não seria possível atirar com a mão destra... 
La Bandida se afastou e encostou-se atrás da parede, respirando com dificuldade. O homem de chapéu negro e de lenço vermelho no pescoço se aproximou acariciando o revolver de prata na sua cintura: 
 — Sabe, Helena, eu nunca pensei que chegaríamos a este ponto, um dia. Quem poderia prever que eu seria o xerife e você a bandida! O mundo dá muitas voltas minha menina... 
Helena! Droga! Era este o seu nome. Já havia até esquecido. A dor lhe fazia esquecer quase tudo. 
O homem se aproximou e agarrou Helena pelo braço ferido e a puxou para si, próprio. Depois deu um soco no rosto da garota fezendo com que seu chapéu negro caísse no barro: 
— Vou facilitar as coisas para você, menina! — Disse ele, ao enfiar a mão no seu próprio coldre e retirar um dos seus revolveres. 
  Depois, o homem colocou a arma na mão direita da pistoleira: 
— Vamos! Segure! 

 “Não dá.” 

A arma caiu na areia barrenta. Os dedos da mão direita de Helena eram fracos. Não suportavam o peso de um colt 45. Aliás, não suportavam quase nada. 
— Assim você me decepciona!  

 “Vou te encher de pólvora, seu desgraçado!” 

— Acabou a brincadeira, La Bandida! Prepare-se, pois teremos nosso tão esperado "gran finale"!   — O homem agarrou a arma que repousava sobre o barro e devolveu ao coldre da moça: 
 — Pronto! Agora você está armada novamente. Vou me afastar e quando o Jack gritar "já", atiraremos! Quem sobreviver paga o funeral do outro. 
 O homem lançou seu olhar negro para a moça e ela reconheceu aqueles olhos. Aliás, aqueles olhos a remeteram para um passado já bem distante e que talvez fosse a hora de relembrar...

13 de março de 2017

O primeiro capítulo de Estela


I
Eu também tenho uma boneca


O dia começou cedo para Ester, Ernesto e Tamires. Ainda não tinha amanhecido quando o trio se encontrava em um dos corredores do Hospital Escola. Era rotina estar ali pelo menos duas vezes na semana. Conheciam pessoas que tinham sina similar e também ocupavam os bancos do lugar naquela oportunidade. Era natural, também, observar a falta de alguém. Fosse pela morte, ou pela cura, havia aqueles que simplesmente sumiam. Ester observava a tudo com novidade. Muitas histórias eram ouvidas ali, mas se perdiam como a própria existência daquelas pessoas. 

Ernesto e Tamires não encaravam a situação da mesma maneira, mas tentavam fazer o que era preciso da melhor forma possível. Assim como as demais pessoas, conversavam sobre o tratamento, instalações e médicos. Vários assuntos surgiam, alguns repetitivos, era verdade. A médica com traços indígenas era um deles. A faxineira toda tatuada, era outro, assim como o bêbado que muitas vezes era posto para fora do local. Uma rotina agitada, tensa e com muita gente, não importava o horário, o que fazia quererem estar em outro local. Mas tinham de estar ali por causa de Ester. 

De repente, algo que não era rotineiro ocorreu. Ouviram choro, passos apressados e conversas. A porta dupla do final do corredor se abriu bruscamente e revelou uma paciente sobre a maca, acompanhada de enfermeiros e familiares. O casal se limitou a inclinar o corpo para facilitar a visão, mas Ester se levantou, atenta ao que vinha.

A maca foi encostada próxima aos acentos ocupados por Ester e sua família. Os funcionários do hospital informaram às três pessoas que acompanhavam a enferma que logo voltariam e afastaram-se ligeiros. Definitivamente, aquilo não era comum, afinal, os pacientes da emergên-cia não ficavam naquela ala. Permaneceu ali um homem, uma mulher e uma menininha que portava uma boneca. O homem conversava com a mulher que chorava. A criança mantinha-se silente, assim como Ester que a tudo observava. Ester se lembrou de que também tinha uma boneca. 

10 de março de 2017

O Mundo Oito na Phoculos


A Phoculos é uma editora voltada ao autor independente. Ela auxilia os autores sem enganá-los ou extorqui-los. Com o intuito de aproximar leitores e autores a editora apresenta um novo  modo de conceber literatura. Conteúdo literário será publicado durante todos os dias da semana por novos autores.

As postagens serão divididas por temas/dias da semana, ou seja, para cada dia haverá um assunto a ser abordado:

Esta é a página inicial do blog da Phoculos
O projeto começou com os escritos dos autores Augusto Júnior, Fagner JB e Paul Law, mas se estenderá a novos participantes. 

Estreei no espaço ontem, dia 09 de março com a primeira parte da série inédita O Mundo Oito: 

 
Mundo Oito é uma terra alternativa onde seus habitantes estão presos ao momento. Tudo isto está prestes a mudar com o uso de joias capazes de transportá-los ao nosso mundo. O Mundo Oito explorará a existência de uma maneira pontual e inovadora. Uma série com personagens que saíram de pinturas famosas...

Confira o link do primeiro capítulo:

O Mundo Oito: I - As joias e o quadro

Espero que gostem. Fiquem atentos aos novos capítulos acompanhando o site da editora ou conferindo as postagens por aqui.

Abraço.     

6 de março de 2017

Resultado do sorteio da promoção Ester clássico em minha casa!

Prezados amigos, venho divulgar o resultado do sorteio da promoção que dará um exemplar do livro Ester edição clássica aos seguidores da página Paul Law do Facebook. 

Utilizei o site Sorteador para o sorteio de um número de 01 a 302 (o número de acompanhantes da página). Para cada seguidor foi atribuído um número para o sorteio. 



O número sorteado foi o 279:


 Que corresponde ao da concorrente Helena Semedo:


Parabéns à ganhadora! Aos demais concorrentes fica o agradecimento. Lembrando que em breve teremos novo sorteio e todos podem concorrer novamente. 

Abraço,

3 de março de 2017

Diário de um Banana de Jeff Kinney


Fiquem com os quadrinhos

Diário de um Banana é o primeiro livro da série homônima de Jeff Kinney, cuja proposta é apresentar ao leitor uma narrativa mista. Enquanto narra a história do adolescente Greg, Kinney ilustra os acontecimentos com pequenas histórias em quadrinhos.

Neste primeiro livro é contada a rotina escolar de Greg e sua intenção de se destacar. O autor também explora a amizade do protagonista com Rowley, um sujeito bobo e esquisito, mas de bom coração. Os capítulos são pontuados com dias da semana e em quase todas as páginas há uma ilustração do autor contextualizando o texto escrito. O recurso funciona bem, dinâmico, natural, concebendo ao leitor uma experiência interessante. Destaque para a parte em que o protagonista e seu amigo estão criando tirinhas para o jornal da escola, oportunidade em que o leitor se depara com exemplos de tiras engraçadas e bem feitas. 

Em contrapartida, o texto narrativo em sua maioria é pobre. O protagonista Greg não tem uma personalidade definida nem é interessante. Não há qualquer amadurecimento do personagem, apreensão de valor ou superação de obstáculo. Há discriminação, intolerância e falsidade nas páginas de Diário de um Banana. A narrativa tenta ser linear, mas não precisa começo, meio e fim da história, dando ao leitor a impressão de ideias avulsas e aleatórias.

Sucesso de venda por seus próprios méritos Diário de um Banana é um livro inovador por misturar quadrinhos á narrativa tradicional. Entretanto não é recomendável para o público para o qual foi concebido (crianças e adolescentes) por apresentar um personagem ruim e que dá maus exemplos. 

Em resumo, é recomendável esquecer o texto e focar nos quadrinhos. 

Fica a pequena resenha. 
Abraço.

1 de março de 2017

Faltam quatro dias para o sorteio de Ester!


É isso mesmo, faltam apenas quatro dias para o sorteio de um exemplar do meu livro Ester, edição clássica. 

Para concorrer você só precisa seguir a minha página no Facebook:


Depois é só esperar o sorteio no dia 06/03, ás 15h. O livro será enviado ao ganhador pelo correio. 

Olha só a capa completa do livro:


Lembrando que todos os seguidores da página concorrerão.
Abraço!

9 de fevereiro de 2017

O Primeiro Capítulo de Edissa


I
O Encontro com Rei Remorso

Edissa caminhou por muitos dias sem rumo certo. Ela andou sem nada de importante para encontrar e se encontrasse não faria muita diferença. Estava doente e para os doentes tudo parece ruim. 
A moça de idade pareada a de uma adolescente de quinze anos, possuía cabelos negros, compridos e formados por grandes cachos, mas o que chamava a atenção de quem a via eram os dedos em carne viva por causa da doença. Havia também feridas grandes que pipocavam sua pele pálida. Iam dos braços até as pernas, na altura dos joelhos. Seus olhos avermelhados eram emoldurados por maquiagem forte e o rosto por algumas cicatrizes, ao passo que os lábios eram contornados por batom negro. Feridas secas, mas algumas novas preenchiam sua testa e bochecha. Trajava um vestido maltrapilho preto com alguns detalhes em vermelho que deixavam seus ombros descobertos. Andava sempre descalça. 
Que tinha? Pensava consigo. As pessoas agora tinham repulsa de sua presença. Viam-na como lixo humano e talvez fosse mesmo algo dessa natureza, mas estava tão evidente assim?
Numa dada altura de caminhada, Edissa viu uma carruagem estacionada. Revoada de corvos veio do horizonte, chegavam aos muitos e voavam em círculo sobre sua cabeça. O crocitar foi estarrecedor e só perdeu volume quando a porta da carruagem negra se abriu, revelando um homem velho de capuz marrom e de lanterna na mão. Os corvos saudaram seu senhor com rasantes e os cavalos relincharam.
— Saudações, Edissa! Que belos olhos você tem! — Aproximou-se o velho com essas palavras. 
— Estou doente! O senhor sabe como posso ser curada? 
— Pois é certo que sei! Foi por isso que vim! 
— Ah que alívio! Minhas feridas doem! 
— Venha em minha carruagem e te levarei para a Vila do Arrependimento, local onde reino. Lá haverá um modo de curá-la! 
Edissa achou estranha aquela proposta:
— Vila do Arrependimento? E para que serve?
— Para abrigar aqueles que se arrependem, não é óbvio? Eu sou Remorso, senhor do Arrependimento! 
— O que é arrependimento? 
Remorso suspirou e corvos pousaram em seu ombro:
— Toda vez que fazemos algo e depois desejamos não ter feito é arrependimento! A culpa por aquilo que fazemos e depois achamos errados, me entende?
Edissa abaixou a cabeça:
— Entendo. Agora sei a razão da sua visita. Sou mesma alguém que carece viver na Vila do Arrependimento. 
Remorso deixou o sorriso amarelo saltar da sua face coberta por capuz. Os corvos voaram e ele disse:
— Em meu reino todo mundo é igual a você! São pessoas que se arrependem em vão. Em vão porque já é tarde para elas. 
— Da mesma forma que é para mim — Edissa continuava com a cabeça baixa. 
— Exatamente! Arrepender-se por aquilo que já foi feito é sempre tardio. Como poderíamos voltar no tempo e não fazer aquilo? Não há como! 
— Não há mesmo.  
— Então venha, criança! Permita-me levá-la ao meu Império de Arrependimento. Suba em minha carruagem! 
Edissa levantou sua mão ferida para que Remorso lhe ajudasse na subida. Galgou o primeiro degrau e depois se sentou, seguida de seu novo conhecido. A porta se fechou e a carruagem começou a se mover. 
Ao ganhar impulso, os cavalos alçaram voo e Edissa admirou da janelinha as árvores e vilarejos que se faziam lá em baixo. Quando estava quase anoitecendo, os cavalos voadores iniciaram a decida rumo às terras de Rei Remorso. Pararam em frente a uma escadaria de mármore que antecedia a entrada de um vasto palácio dourado:
— Mas que bonito! — admirou Edissa.
— Estamos no centro do Vale da Culpa e ao nosso redor estão todas as pessoas de que falei! Estão todos os que se arrependem! Vivem aqui. — disse Rei Remorso, explicando que ficava no castelo enquanto todos os outros permaneciam no aparente vilarejo que se fazia em volta. 
— Meu senhor — Edissa se voltou para o rei —, quando poderei receber minha cura?
O velho sorriu malicioso e por um instante pareceu que iria curar Edissa instantaneamente:
— Eu menti sobre curá-la — Rei Remorso virou de costas e fez um sinal para os soldados que guardavam a entrada do seu castelo. — Levem-na! — disse por fim.

6 de fevereiro de 2017

Você pode ganhar a edição clássica de Ester!




É isso mesmo! A promoção que sorteia exemplares do livro Ester 1ª edição está de volta. Para concorrer é muito simples:

- Siga a minha página do Facebook:


- Aguarde o sorteio que será no dia 06 de março. 

Lembrando que todos os seguidores da página concorrerão. Se o sorteado já tiver ganhado o livro, será realizado um novo sorteio. 

A ideia é prestigiar os amigos. Seja um, participe! 
Abraço. 



Comprar 


   

1 de fevereiro de 2017

A Hora da Estrela - Clarice Lispector


A vida é um soco no estômago 

A Hora da Estrela é o último romance de Clarice Lispector. Narrado por Rodrigo S.M., alter-ego da importante escritora modernista, conta a história de uma nordestina. Não linear de linguagem complexa e de divagações pontuais, A Horta da Estrela é uma obra única, constituída em sua maioria por texto introdutório. Arquitetada de forma não convencional, já que o autor/narrador intercala a apresentação do tema com suas próprias conclusões, a Hora da Estrela é sutil, intensa e profunda. 

Tudo começa com o próprio Rodrigo dizendo que pretende contar a história de uma nordestina que veio ao Rio de Janeiro em busca de vida melhor. Enquanto vai apresentando sua personagem e o mundo no qual está inserida, vai dando detalhes de si mesmo e como sua visão interfere no próprio destino de Macabéa (este é o nome da alagoana, personagem principal do livro). O ponto em que deixamos as divagações do autor e adentramos verdadeiramente na vida de Macabéa é leve, sutil, quase que natural. As histórias se ligam facilmente. Rodrigo interrompe por várias vezes o relato que faz da vida da nordestina a fim de contar algo alheio, mas retoma a narrativa naturalmente. Há ocasiões em que salta no tempo, regride, costura, interrompe, de modo que o entendimento do seu leitor se torne fragmentado. Passa-se muito tempo anunciando uma grande história, um ápice, clímax, a hora da estrela. Quando ele ocorre, no entanto, é como um soco no estômago. 

Clarice escolheu uma personagem invisível aos olhos do mundo para dar-lhe voz e importância. Entalhou com maestria traços de realidade no lúdico, na arte. Há um processo de embelezamento  em A Hora da Estrela. Olhos atentos... Macabéa sempre soube o seu lugar no mundo e estava bem com isso. Só ideias alheias puderam lhe trazer novos pensamentos (sua desgraça ou salvação) Ao final, o que permanecesse são os momentos que nunca são vividos, a esperança (todo mundo tem esperança).

Um caminhão, um momento de glória e mais nada. 

A Hora da Estrela é um livro curto, intenso e perturbador. Complexo por sua construção, belo por natureza. Confesso que nunca havia lido algo assim. 

Fica a resenha e a dica.   


27 de janeiro de 2017

Dom Casmurro mais uma vez



Quando comecei a me interessar por livros, estabeleci algumas regras básicas. Uma delas era a de não ler mais de uma obra do mesmo autor, posto que há tantos autores e tantos livros que minha vida seria insignificante para conhecê-los. Com esta "lei de sobrevivência" acreditei que aproveitaria os meus anos da melhor maneira possível. Contudo, não tardei a descumpri-la; a cometer o crime de ler mais de um livro de mesmo autor. Os motivos para a infração são óbvios: quando um autor nos agrada, desejamos lê-lo novamente. Aqui mesmo verá que há autores recorrentes, mas ainda não houve livros.

Até agora.

Peguei-me relendo Dom Casmurro. Primeiro algumas partes para matar a saudade, depois para conferir se o tempo me havia dado olhos novos, assim como as leituras capacidade de compreender além. Verdade não mudei muito, mas o pouco basta para um novo texto sobre a obra. Talvez mais de um. Isto nem é importante, já que uso o espaço de hoje para justificar um futuro texto (que talvez nem chegue a ganhar publicação). Nas páginas do próprio Dom Casmurro há muitos capítulos introdutórios, fomentadores de expectativas que muitas vezes não passam disso mesmo: expectativas.

Entretanto, o amigo que veio até aqui não sairá de mãos vazias. 

Algo que esta nova leitura me fez compreender foi que Dom Casmurro não é uma obra sobre a intolerância. No introdutório da edição que reli, começa-se afirmando que trata-se de um romance sobre intolerância. Peço desculpas ao nobre pesquisador que assim o definiu, mas se fosse possível definir Dom Casmurro com uma frase, aos meus olhos, seria como um romance que trata do psicológico do ser humano. Neste campo, creio ser adequado estabelecê-lo. Os motivos são sutis, um contraste à intolerância. Inicialmente, justificam-se pela própria narração, os olhos de Bentinho distorcidos pelo tempo, pelas emoções e pela imaginação. Quem pode atestar, afinal, que ele é honesto com seu leitor? Escreve um diário de fato, mas há segredos que não confiamos nem mesmo às páginas particulares. Mesmo que pense diferente é certo que Santiago tem intenção de ver suas memórias publicadas. O amigo que me acompanha crê que não interferiria na própria história para dar-lhe mais brio aos olhos alheios se tivesse oportunidade? Há muito subjetivismo nas páginas de Dom Casmurro. 

Assim, há de se ponderar que a intolerância, o sentimento de não aceitar; não crer na possibilidade; repudiar, ser avesso, contrário, não pode existir sem que o narrador se convença de que exista. Convencer a si mesmo é a parte mais difícil e eis aí o objetivo em "unir as duas pontas da vida". Parte da riqueza do texto está contida aí; na verdade que nunca poderá ser elucidada. 

Disse que não sairia de mãos vazias, mas nem cheias. Apenas uma opinião de leitor.

Talvez uma terceira leitura seja necessária.                 

25 de janeiro de 2017

Fezesman - Contraditório

Clique na imagem para aumentá-la

23 de janeiro de 2017

Crônicas de Ester: O Pedido de Ádria


O pedido de Ádria

Jorge era exímio lutador, mas não era páreo para todos os demais cavaleiros virtuosos. Venceu alguns com sua espada, feriu outros, mas logo teve sua arma desprendida do braço. Rendeu-se. Miranda acompanhou tudo apreensiva.
— Ela escolheu a mim! — argumentou o líder.
— Não a ouvimos dizer isto.
— Pois diga, Miranda. Diga a eles que vamos nos casar!
— Não — falou Miranda — Caso-me com o cavaleiro mais habilidoso.
José Mendonça que a tudo ouvia, exaltou-se.
— Eles se matarão! Tens consciência disso?
Miranda deu de ombros. Falou-lhe:
— Não aceitarei nada além do melhor. Não sou gorda e feia como antes.
Notando que disputavam a mão da mulher mais bela do mundo os cavaleiros desfizeram a união de até então. A luta deveria ser individual e neste ponto, Jorge recuperou sua vantagem. Hipnotizado por Miranda, atacou os próprios companheiros, vencendo-os um a um, até permanecer sozinho diante da dama.
— Matei todos os meus adversários para que reconhecesse minha bravura. Sou digno de ser teu marido.
— Tens razão, és digno. Casaremos.

Um dos cavaleiros virtuosos sobreviveu à disputa por Miranda e correu relatar tudo para rainha. Ele chegou ao reino de Ádria dias depois e informou que Sir Jorge havia enlouquecido, dizimando toda a sua tropa de cavaleiros e que casaria com uma dama muito bonita, cujo nome era Miranda. A rainha se enfureceu. Dispensou o virtuoso e caminhou até a saída do salão do trono.
— Preciso de sua ajuda, meu pai.
Depois de dizer a si mesma estas palavras, a rainha dirigiu-se até o antigo calabouço no qual permaneceu morta e presa com o marido tempos atrás. Ela sabia que o local era mágico. Sabia, também, como pedir ajuda dali. Suas decisões como chefe de governo, muitas vezes vinham de lá.
O lugar estava infestado de serpentes. As cobras capazes de transitar entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Ádria tinha poder sobre elas, desde sua ressureição.
— Tragam-me meu pai — ordenou.
Todas as cobras entraram na tumba da rainha e uma luz rubra emanou de lá. Mãos humanas apareceram, antecedendo um corpo forte e nu. O homem se sentou. Sua pele era alva e brilhante. Não dispunha de cabelos, o corpo todo marcado por símbolos mágicos.
— Filha boa, o que desejas?
— Vingar-me. Dê-me o poder para tanto.
— Sabes melhor do que ninguém que nada do que disponho é de graça. O que tens para me dar em troca?
— Do que precisas?
O homem falecido abriu os braços precários. Respondeu:
         — Dê-me um corpo de carne.


Para conferir todas as crônicas e entender o momento da história clique aqui.