16 de novembro de 2017

O Curioso Caso de Benjamin Button



Um conto ao contrário 

O Curioso Caso de Benjamin Button é um conto escrito pelo autor estadunidense F. Scott Fitzgerald e publicado originalmente no ano de 1922. Sua principal característica é abordar a vida de forma invertida. O personagem principal nasce velho e vai rejuvenescendo ao longo da história. 

A trajetória de Benajmin começa com o seu nascimento, mas diferente dos outros nascentes, ele vem ao mundo já adulto. Melhor dizendo: idoso, reclamando de dores nas costas, da visão precária. O Sr. Button, seu pai, fica surpreso ao vê-lo pela primeira vez e tem dificuldade em lidar com a inusitada situação. Ao levar o filho para a casa, passa a tratá-lo como um bebê por mais estranho que isso possa parecer. Benjamin, embora adulto, veste-se com roupas próprias de uma criança que acabara de nascer, feitas especialmente para o seu tamanho. Com o tempo sua mãe e seu pai percebem que o filho não é uma criança comum e passam a aceitar que estão diante de um senhor de idade. O Sr. Button vê no filho a figura de seu pai. Eles jogam Xadrez e fazem outras coisas de adulto. Com o passar dos anos, Benjamin desenvolve uma nova peculiaridade: ele rejuvenesce. Passa a nivelar de idade com o pai, o que o faz considerá-lo como um irmão. Mais alguns anos e o homem que nasceu velho casa-se, tem um filho e assume o comando da empresa do pai. Os anos o deixam moço, ele passa a trair a esposa que a este tempo já é uma senhora. O casamento acaba, ele vai à guerra. Quando volta se dá conta de que está na contramão da ordem natural das coisas, o que ainda vai lhe garantir muitos problemas. 

O autor com uma ironia mordaz, explora o tempo de uma maneira interessante. Embora a ideia seja simples (e como toda boa ideia simples, funcione), o conto cumpre o seu papel em apresentar uma vida ao avesso. F. Scott empregou muita imaginação para situar Benjamin no seu tempo e espaço. Diferente do filme, no entanto, a história aqui é mais rápida, menos reflexiva, e até menos coerente. O conto explora de maneira direta a inversão de idade, enquanto o filme tenta dar um sentido mais filosófico às leis naturais.

Em suma, quarenta e quatro páginas muito bem aproveitadas. Uma história rápida e intensa que termina onde a maioria das histórias começa, o que é perturbador.

Fica a breve resenha e dica.     
      

7 de novembro de 2017

Fezesman - O que você tem na cabeça?

Clique na tirinha para ampliá-la

1 de novembro de 2017

A Livraria Mágica de Paris de Nina George


Um livro sobre livros e sentimentos

A Livraria Mágica de Paris de Nina George é uma obra que narra das aventuras de um recluso livreiro que possui um barco-livraria em Paris. Diferente do que se imagina num primeiro momento, o título não faz jus à trama, já que a livraria flutuante não possui propriedades mágicas. O que é mágico, segundo George, é a leitura; sua capacidade de funcionar como remédio para várias enfermidades da alma ou física.

Jean Perdu é o personagem central do romance. Um homem a beira dos cinquenta anos que possui um segredo. Embora trabalhe todos os dias à bordo de Lulu, o seu barco-livraria, vendendo livros aos turistas e transeuntes de Paris, ele vive em um edifício familiar da cidade. Em seu modesto apartamento há um quarto que ele não frequenta. O cômodo há vinte anos foi o local em que passava as noites com Manon, o seu grande amor. Ela o abandonou sem explicações e Perdu fechou aquela porta para jamais abri-la. Entretanto, a chegada de uma nova moradora, o força a mudar de ideia. Caterine precisa de uma mesa e Jean tem uma sobrando no quarto trancado. A nova moradora acaba de se divorciar do marido e ainda está bastante fragilizada, o que faz Perdu querer ajudá-la. Ele, então, visita o cômodo proibido, encara o seu passado, suas lembranças que são como lobos, já que encaradas, não te deixam em paz facilmente. Caterine recebe a mesa e depois devolve a Jean um carta de Manon que estava guardada em uma gaveta. A mensagem escrita há vinte anos pela mulher de sua vida o faz mudar completamente de vida, ele decide buscá-la, resolve entender o que houve, desculpar-se, não sabe bem o que precisa fazer. Embarca em Lulu e juntamente com Max Jordan, um escritor que angariou relativa fama já na estreia e que escolheu o dia errado para uma visita, desce o rio em busca do passado. 

Uma história que fala de livros e sentimentos, como dito anteriormente. Nina George descreve com eficácia o que o remorso pode fazer a uma pessoa. Mais que isso, narra com sensibilidade o que o amor, a amizade, podem fazer a uma alma perdida. Uma obra profunda que trata de recomeço, do tempo, das feridas e da complexidade sentimental humana. Perdu, um homem de leitura, encontra no rompimento de sua rotina o caminho para transpassar as águas do "tempo ferido", fazer novos amigos, perder outros e aceitar o fato de que as coisas são transitórias (por mais belas e intensas que possam ser). Os lugares frequentados pelo livreiro e sua turma são reais. Os rios descritos no livro, as cidades, talvez as pessoas, o que dá um ar de verdadeiro aos fatos. Há um mapa com o percurso de Perdu em sua busca por Manon. Ao final existe um aprendizado, um amadurecimento e o entendimento do que realmente importa numa existência. Dessa vez, no entanto, Jean Perdu, consegue chegar a tempo.

Em determinados pontos da trama, no meio para ser mais exato, a narrativa se torna cansativa. Não há acontecimentos relevantes para o desenvolvimento do núcleo central. São histórias paralelas exploradas superficialmente, viagens cansativas, paradas despretensiosas. Quando Jean e Max deixam Lulu, a história entra nos trilhos novamente e se desenvolve como emoção até a última linha. 

Em suma, um livro maduro, bem construído com começo, meio (longo demais) e fim bem delineados. Uma história que explora a condição humana e o tempo. No final há um brinde interessante aos leitores, já que tal qual Perdu fazia aos seus visitantes, Nina nos indica livros para curar várias doenças. Leitura recomendada!

Fica a dica e a resenha.
Abraço.                

20 de outubro de 2017

Capítulo 13 de Estela foi adicionado ao Wattpad


Há exatamente um ano publiquei o capítulo 12 de Estela no Wattpad. Agora vai o 13 que, somado aos outros, dá uma boa parte do livro. Neste capítulo é revelada a identidade do vilão da história, o Fogo. Explica-se a sua relação com a protagonista.  

Confira no link:

https://www.wattpad.com/story/27815467-estela

Ah, se quiser ler o livro todo é possível adquiri-lo em e-book por apenas R$ 1,99 ou o livro físico por R$ 26,00:


Abraço!
Paul Law

28 de setembro de 2017

30 e Poucos Anos e uma Máquina do Tempo - Mo Daviau


Música, viagem no tempo e outras coisas

O romance da estadunidense Mo Daviau combina rock e arrependimento. Pode parecer clichê falar em viagens temporais com este intuito, mas 30 e Poucos Anos e uma Máquina do Tempo (que título enorme!) tem outros recheios. Apresenta romance, física, datas de shows importantes e, é claro, muita música. 

Tudo começa com o personagem/narrador Karl Bender se metendo em uma enrascada. Sim, ele tem um "buraco de minhoca" em seu apartamento que usa para viajar no tempo e assistir shows de bandas de rock do passado, mas não é por isso que as coisas dão errado. Nem mesmo por "vender" vagens a outros amantes do rock antigo.O problema é o seu melhor amigo e o responsável por tornar o buraco de minhoca funcional:Wayne DeMint. O sujeito quer voltar no tempo e impedir o assassinato de John Lennon. Bender tenta dissuadi-lo, dizendo que o buraco de minhoca não deve ser usado para alterar o passado, mas Wayne está decidido. Bender cede, eles programam a viagem, só que há um pequeno erro de cálculo. Karl esquece de colocar o número 1 para o ano de viagem ser o de 1980, mandando o amigo para o ano de 980. É por isso que o personagem principal precisa conseguir ajuda de um físico para trazer Wayne de volta; é por este motivo que ele conhece Lena. 

Daviau tem uma escrita agradável e fluída, mesmo narrando pelos olhos de um personagem um tanto quanto sem graça. Karl Bender é um ex guitarrista de uma banda de médio sucesso, o Axis, já desfeita no tempo em que a história ocorre. Sempre se comparando e invejando ao vocalista desta banda, o excêntrico Milo, ele tem uma vida medíocre (mesmo podendo viajar no tempo). A jovem física Lena dá um up na vida decadente do narrador, mas também causa-lhe problemas, num misto de amor e ódio explorado de forma interessante. 

Saudosista, futurista, uma bagunça temporal e emocional, 30 e Poucos Anos e uma Máquina do Tempo é um livro da nossa época. Mostrando personagens emocionalmente fracos, arrependidos, buscando algo que não sabem definir; tentando fazer as pazes com o passado e ficarem bem no futuro. Esta faceta dos personagens é o que há de mais interessante na obra. No final o que importa é o caminho, não o ponto de chegada. Leitura recomendada.

Fica a dica e a resenha.
Abraço.        

20 de setembro de 2017

A Máquina



A primeira vez que ele a viu, mesmo tento ouvido falar, não soube precisar o que era. Uma televisão? Um rádio? As duas coisas juntas? Aproximou-se, cores berrantes, alavancas, botões. O cômodo era escuro. Seu amigo contou-lhe que havia perdido toda a manhã anterior ali. O dono do estabelecimento fez como se eles não estivessem no local, se enfiou entre duas daquelas máquinas e as ligou. O som saiu antes da imagem, alto. Incrível.

Funcionava com fichas, como os orelhões, percebeu. Pequenos círculos metálicos com os dizeres "havai" deveriam ser inseridos na parte de baixo da máquina para dar-lhe alguns minutos de diversão. Dez centavos, um crédito. Era difícil ter uma moeda para trocar por uma ficha, mas dava um jeito. Também, se não desse não tinha problema: observar a máquina já lhe bastava. Via-na como um símbolo da cidade, da modernidade, não conheciam a palavra tecnologia para usá-la.

O desempenho na escola caiu. As imagens da tela de tubo não saía da cabeça. Repetia o som dos golpes dos lutadores, coisa de infância atrasada. Enforcava aula (chamava assim gazear, não entrar na escola), mas ninguém dava falta, afinal era invisível. Trocava coisas velhas por moedas, a fim de conseguir alguns minutos no controle da máquina. O dono das máquinas era discreto, como todo bom dono de algo importante. Talvez não se importasse, talvez estivesse ocupado com algo importante. 

Não havia felicidade maior do que estar diante da tela.           

   

6 de setembro de 2017

Ainda


Limites, repetição, prisão. Todas estas palavras significam a mesma coisa para ela. Nem mesmo um nome lhe deram. É uma mulher de vinte e poucos anos que dança a mesma música com o mesmo par no mesmo lugar e no mesmo momento. Na verdade, só há um instante e ele se mantém. Ela sabe que alguém os observa. Às vezes consegue sentir o toque quente sobre a tela. Querem saber se é real; se não é uma cópia. A tinta secou há muitos anos, mas a dança não acaba enquanto existir a observação. Quando as portas se fecham, os passos se afastam e as luzes se apagam é que pode desfrutar da liberdade. Conversar, se sentar, beijar. De dentro, a tinta é sempre fresca. Sair? Ela sabe que é possível, embora não possa precisar como. É como um nome na ponta da língua que teima não sair. Um gatilho prestes a atingir o cão do revólver. O cheiro de pólvora é assustador. Como sabe identificar o cheiro de pólvora? A música toca infinitamente, as mesmas risadas e comentários. Tudo é tão previsível e automático que não há vida.
Ela não está mais dançando. Em sua frente há um homem de traços orientais. Ele é pequeno, forte, ágil e confiante. O sujeito cobra-lhe foco. O suor escorre do peitoral definido do homem. O que faz ali? É confuso. É complicado. Ele fala o seu nome. Ela sabe que é o seu nome, mas não consegue guardá-lo na memória. O que está havendo? 
Segura a taça com delicadeza. O cristal está próximo aos seus olhos castanhos para análise. Franze o cenho ao imaginar que o objeto foi moldado em homenagem aos seios de uma rainha. Teria bebido vinho demais? Não seria a única. A risada alta, gestos exagerados, franqueza, são observados no salão. Todos estão felizes, o observador se foi. É noite lá fora. Uma mulher bonita se aproxima, os seus ombros descobertos estão suados. A festa é em homenagem ao casamento desta mulher que é sua amiga e isto basta. Basta? Não. Falta algo. Um objeto. Ela pergunta:
— Onde está sua aliança?
— As pessoas não vão entender — o homem de traços orientais fala o nome mais uma vez. 
Ele está certo. Não é fácil compreender que todo ser humano não passa de um objeto de adorno; que sua vida está presa em uma joia dimensional. O oriental é apenas uma aliança perdida, já que se tomassem consciência de sua existência ele teria o mesmo fim das outras joias.

Guardado.

— Eu a perdi — a Noiva dá de ombros. 
Ela beberica o resto do vinho de sua taça. Responde: 
— Deveria tomar mais cuidado.    
— Ainda acho que algumas coisas não podem ser evitadas.
Ela abre os olhos vigorosamente. Um estalo, um chute no estomago, um atropelamento, buzinas. A taça escapa-lhe dos dedos e ganha o assoalho de madeira estilhaçando-se. Ela afasta a cadeira, desajeitada. Noiva também se levanta sob constantes pedidos de desculpa. Entre os cacos há uma aliança prateada e reluzente. 
Ele se chama Jun-fan e não morrerá de velhice. Tem esposa e dois filhos ainda (é esta a palavra) pequenos. Em que ano está? Não importa. É como admirar um quadro, os detalhes continuam ali, mas a visão da totalidade é que é chamada de arte. O relevo da tinta, o desenho que mais parece um borrão se observado de perto. A moldura fecha o mundo, assim como o metal cerca a vida. Repetição. Tudo está pré-determinado para aqueles que estão afastados. Os afastados são como o observador. A explicação é bem simples: são aqueles que podem ver a totalidade.
— Liberte-se — é o que Jun-fan diz. 
Ela pensa em argumentar com ele, explicando-lhe que a vida é um círculo prateado, donde não se pode precisar o local do começo e o fim, mas desiste. O homem acredita verdadeiramente no que diz e há algo estranho nele. Ela sabe o que é; percebe que já viu alguém com habilidades similares; um ser capaz de compreender a beleza de uma joia. 

Ourives.

Os joelhos pressionam o assoalho de madeira ao som do vidro esmagado. O anel está pinçado e em frente aos seus olhos. 
— Ele me fez colocar em sua bebida. Disse que algo está acontecendo; que você precisa se preparar.
Ela gira o anel entre os dedos. O metal frio, uma vida. Quem? 
— Coloque-o — diz Noiva.


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